✝ 29/08/2008

✝ 01/09/2008

Às 21 horas e quinze minutos de uma sexta-feira úmida e fria a vida de uma das pessoas mais admiráveis que já conheci foi ceifada. Meu pai.

Nascido no Japão, chegou ao Brasil ainda pequeno. Lutou com sua família, como tantos outros conterrâneos, para obter sucesso neste novo mundo. Ainda jovem casou-se e teve três filhos, e batalhou duro para garantir que nada faltasse à esta família. E nada faltou. À sua maneira sempre demonstrou sua preocupação conosco, principalmente quanto à nossa formação.

Quando eu era apenas um garoto, pedia este ou aquele brinquedo. Minha mãe me explicava que não daria para comprar. Pelo menos não no momento. Não havia dinheiro, mas se eu fosse paciente e fosse realmente importante eu poderia ter o brinquedo. E que criança é paciente? Mas um livro…  Um livro eles nunca recusavam.  Eu não fazia idéia que tipo de sacrifício eu poderia estar impondo, mas eu sempre conseguia o livro. O livro não, *os *livros.

Nesta época também era bem comum a venda de fascículos semanais em volta de um tema. Junto ao último fascículo vinha a capa dura para encadernar. Toda segunda era dia de esperar minha mãe voltar da  banca de jornal e voltar com fascículos prontos para serem devorados por meus diminutos olhos, curiosos e famintos.

Dia após dia a sala de minha casa foi transformando-se em uma biblioteca. Literalmente. Muitos colegas vinham tomar um ou outro volume emprestado para poder fazer suas tarefas e trabalhos da escola. Conheci as florestas e seus animais,  conheci o ártico, conheci os oceanos e os desertos. Conheci  Beremiz Samir e a magia e mistério dos números.

Conheci vários países, suas culturas, suas moedas, seus selos. Conheci Monteiro Lobato e as peripécias de Emília, Narizinho, Pedrinho. Conheci a cultura persa e chinesa através de contos e anedoras populares. Conheci Urashima Tarô.  Conheci o interior do átomo, a infinitude das estrelas, a imensidão do espaço,

Obrigado pai. Você meu deu todo o universo. E isto não há nada que retribua.

Em minha lembrança ficará para sempre o japonês baixinho, calvo e bem humorado. Bonachão e de boca suja. Alguém tão formidável, tão amigo e carismático que fez muitas pessoas não conterem as lágrimas por sua partida.

Se há algo que pode consolar o que sinto, é você ter visitado ao menos uma vez sua terra natal. Ter visitado seus parentes distantes e ter sido tão bem acolhido por lá que dizia ter ficado em dívida com eles.

Dívida que você estava feliz em pagar durantes as festas deste ano, ao rever a japonesada  e tratando-os como foi tratado, com simpatia e alegria. Com comida e bebida. Com muita festa. E foi em meio a esta festa, com este sentimento de felicidade que você se foi. Como sempre disse que gostaria que fosse. Rápido e sem sofrimento.

Espero honrá-lo em todos os meus atos. E a cada dia me aperfeiçoar. A cada dia me tornar alguém melhor. A cada dia chegar mais próximo do que você é para mim.